The Patterning Instinct: um livro de história sistêmico

Oi! Estávamos há um tempo sem nos falar. Mas agora trago para você alguns highlights do livro The Patterning Instinct – A Cultural History of Humanity’s Search for Meaning.

Este é um livro de história, daqueles bons, ao estilo “Sapiens”. O autor Jeremy Lent conta a história da humanidade por meio de uma visão sistêmica, especialmente com a ideia de que nossa busca por significado influencia nossa cultura, que por sua vez influencia a história. Foi prefaciado por Fritjof Capra.

O estrutura geral passa por como nos tornamos biologicamente humanos e como chegamos à linguagem, à consciência mítica e como nos relacionamos com a divindade e o sagrado, seja através de um ambiente gentil (o animismo dos caçadores-coletores), depois por meio de uma hierarquia de deuses (quais os maiores, quais os superiores) e, por fim, através do dualismo céu e terra. Fala sobre a consequente “conquista da natureza”, da revolução científica e da era do consumismo. Finaliza com ideia sobre as trajetórias para nosso futuro.

Quero ressaltar alguns pontos, importantes na nossa forma de ver:

  • O autor crê que a abordagem sistêmica seja fundamental para compreender a complexidade e por isso pode ser útil aplicá-la ao campo da história.
  • Nossa história é principalmente a história de como atribuímos significado e as principais ideias a que aderimos. é como expressa Clifford Geertz: “O ser humano é um animal que fundamentalmente simboliza, conceptualiza e busca sentido”.
  • A história contada por Lent oferece uma teoria e um framework convincentes sobre a dualidade competição x cooperação entre os seres humanos.
  • O que a maioria das pessoas não tem noção é de que os povos primitivos caçadores-coletores reuniam-se para PREVINIR QUE MACHOS MAIS PODEROSOS OBTIVESSEM EXCESSIVO CONTROLE, usando comportamento coletivo  como ridicularização, desobediência e até mesmo sansões como assassinato.
  • Os grupos que saíram da África para povoar o resto do mundo através do Mar Vermelho geraram uma diversidade genética muito menor do que as populações que permaneceram na África.
  • Toda vez que o homo sapiens, em qualquer período da história, penetrou um novo continente, ou território, houve extinções de megafauna.
  • A revolução agrícola, que criou os povos agricultores, tornou-se um movimento que expandiu-se por conquistas, sejam elas conquistas violentas, ou “conquistas poéticas”, já que os machos agricultores tendiam a atrair fêmeas forrageiras (i.e., caçadoras-coletoras).
  • Com a agricultura, pela primeira vez o homem viu-se diferente do resto da natureza e passou a impor suas formas simbólicas a ela. Isto pode também ser chamado de Revolução Simbólica. As casas passaram de circulares para quadradas e retangulares. Cercas e linhas de limites sugiram, separando campos da natureza e campos entre proprietários.
  • Excedentes passaram a ser trocados ou comercializados e surge um novo limiar de complexidade social, incluindo elementos como riqueza, hierarquia e heranças.
  • A espiritualidade decorrente da era agrícola passa a ser de separação e desconfiança em relação à natureza. Inaugura-se a era da ansiedade. A natureza deixou de ser generosa, uma mãe doadora. Passou a ser mais algo que precisava ser controlada e apropriada.
  • Deidades deixaram de ser animais ou seres vivos, para adquirirem formas humanas. O novos deuses costumam ter a posição de autoridade, logo surge a ideia da súplica. O ser humano passou a suplicar aos deuses por sua ansiedade. É um completamente novo relacionamento dos seres humanos com os deuses.
  • Mais tarde este relacionamento passa a ser mediado por padres, deixando de ser direto como anteriormente.
  • Posteriormente ainda, novos padrões muito significativos de simbolismo surgem com os gregos. Eles desenvolveram a ideia de que o mundo imperfeito que os rodeava tinha algo de mais sublime num local transcendental: o mundo da razão pura, ordenado pela linguagem da matemática. Platão, Parmênides e outros sugeriam a renúncia ao não confiável mundo dos sentidos em favor dos princípios da lógica. Já Heráclito, por outro lado, sugeria exatamente o contrário.
  • Já os antigos chineses acreditavam numa ordem universal a que os seres humanos deveriam acessar, o chamado Tao. No entanto, os chineses acreditavam que a linguagem era um passo fundamental na PERDA DA CONEXÃO das pessoas com esta ordem universal.
  • O tema da linguagem traz o gancho para uma compreensão da nossa cognição: o linguagem que você fala afeta a maneira como sua cognição se desenvolve. Logo, linguagem influencia pensamento que influencia cultura que influencia linguagem, e vice versa. O autor fala do triplo relacionamento recíproco entre linguagem, cognição e cultura.
  • É que, entre outras coisas, a linguagem tem um efeito padronizador na cognição. Tendemos apensar sempre as mesmas coisas influenciadas pelos padrões linguísticos.
  • Outra das coisas que tendemos a pensar padronizadamente é as metáforas que usamos. Uma muito proeminente, nascida como a agricultura, é de que a NATUREZA DEVE SER CONQUISTADA. Outra, mais recente, pertencente  a revolução científica, é de que a NATUREZA É UMA MÁQUINA  e, logo, pode ser “engenheirada”, projetada. Metáforas têm o poder de criar realidades.
  • Nossas realidades históricas foram influenciadas pelas metáforas que atribuímos à natureza, época após época.
  • Há uma pergunta no livro bastante interessante. Houve um general chinês chamado Zheng, do Séc.XV, que tinha uma armada gigantesca. Ele aportou em vários lugares do mundo sem a ideia de conquistar um local sequer, estabelecendo, ao invés disso, embaixadas. Jeremy Lent pergunta-se por que Zheng, como um poderio muito maior, não desejou conquistar os povos que visitou, ao contrário de seu contemporâneo Cristóvão Colombo, com uma armada infinitamente menor. “Uma resposta é de que os Europeus abordavam o mundo com valores fundamentalmente diferentes, um deles era sua abordagem em relação ao poder. Como resultado da separação dualística da cognição européia, o mind-set europeu era mais predisposto a usar o conhecimento como meio de ganhar poder sobre o ambiente, incluindo tanto o mundo natural como outras sociedades humanas. Em contraste, o mind-set coletivo chinês era predisposto a usar o conhecimento como meio para manter a estabilidade.”
  • Apesar do dualismo greco-ocidental, houve sempre, fora do mainstream, a resiliência do paradigma que via a natureza, não como uma máquina engendrada por uma camada superior de razão pura, mas como um organismo vivo. Esta resiliência existiu entre os gregos, com Heráclito, que via o mundo em constante fluxo e transformação, entre os chineses com, por ex., o Taoísmo, entre os filósofos europeus renascentistas, como Spinoza, e depois com a explosão de novas ideias pertencentes ao novo paradigma sistêmico, tendo tido origem nas mais variadas disciplinas, como física quântica, biologia organísmica, psicologia das Gestalt, ecologia, cibernética, ciência da complexidade e do caos, entre tantas outras.
  • Vivemos sob a influência moderna das ideias do consumismo. O autor crÊ que a cultura do consumismo é oriunda de duas ideias ou padrões de significado fundamentais: a possibilidade de encontrar a salvação nesta vida (e não nas próximas), e a crescente eficiência industrial à procura de consumidores para seus produtos.
  • Isto levou a civilização global a um curso insustentável. O autor crê que isto é por causa que historicamente nos baseamos cada vez mais em padrões de significado de DESCONEXÃO. Desde a concepção dualística do ser humano x cosmos, razão x emoção, mente x corpo e, por fim, definindo o ser humano somente como a mente.
  • Bem, gente, estes pontos não pretendem apresentar um resumo coerente, mas algo que achei interessante e que poderia levá-los a se interessar pelo livro. Eu recomendo!