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Campbell, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo, Cultrix/Pensamento, 2007.

Campbell, um dos maiores mitólogos já existentes, dedicou sua vida ao estudo comparado das mitologias de todos os tempos. Neste livro clássico ele expressa uma síntese inspiradora sobre os grandes temas das contações de histórias de muitos povos, dando origem à famosa “jornada do herói”.
Citar Campbell numa coletânea de textos sistêmicos justifica-se por, pelo menos, dois aspectos. O primeiro é o reconhecimento da hercúlea capacidade de síntese de Campbell, que perscrutou o mundo das histórias à busca de padrões. E os encontrou. A segunda é a compreensão do caráter circular expresso por um grande número de mitologias mundo e tempo afora, o que se expressa também na circular e sem fim “jornada do herói”. Aprecie abaixo alguns de seus achados.

Iniciando

Campbell crê que a mitologia e seu caráter simbólico e aventuresco nasce com os sonhos. Considera-os mensageiros perigosos 
“porque ameaçam as bases seguras sobre as quais construímos nosso próprio ser ou família. Mas eles são, da mesma forma, diabolicamente fascinantes, pois trazem consigo chaves que abrem portas para todo o domínio da aventura, a um só tempo desejada e destemida, da descoberta do eu. Destruição do mundo que construímos e no qual vivemos, assim como nossa própria destruição dentro dele; mas, em seguida, uma maravilhosa reconstrução, de uma vida mais segura, límpida, ampla e completamente humana” (p.19).
Conforme Campbell, sonho e mito entrelaçam-se na medida que “o sonho é o mito personalizado e o mito é o sonho despersonalizado” (ou seja, tornado comum, comunitário).
A ideia da aventura proposta pelos sonhos e tornada histórias contadas e mitos envolve uma cisão. É uma cisão do espírito e, muitas vezes, do grupo social, que não se resolve por um retorno aos “velhos bons tempos” (arcaísmo) ou pela produção de programas que produzam um futuro ideal projetado (futurismo), nem mesmo pela restauração dos elementos atuais em processo de deterioração. Apenas um (re)nascimento pode conquistar a morte iminente. Nascimento, não de algo antigo, mas de uma coisa nova.
Para esta tarefa surge o herói: aquele que se lança na aventura de encontrar algo novo, restabelecedor, revigorante. Sua primeira tarefa será retirar-se deste mundo e empreender uma jornada pelos meandros de mundos obscuros (a própria psique), onde residem as verdadeiras dificuldades, suas causas estruturais e profundas, tornando-as claras, erradicando-as, o que envolve penetrar no mundo das imagens arquetípicas.

Então, quem ou o que é o herói?

É o homem ou mulher que vence limitações pessoais e locais e alcança novas possibilidades humanas. Vencem e voltam renovados, “falando” com eloquência da sua aventura que brota das fontes primárias da vida e do pensamento humanos e não da sociedade e psique atuais em estado de desintegração. O herói morre como figura moderna e renasce como ser eterno – aperfeiçoado, não-específico, universal. Por isso, é parte de suas tarefas retornar ao nosso meio, transfigurado, ensinando a lição de vida renovada que aprendeu.
Todo somos chamados à jornada do herói em algum ponto da vida. Aí entra uma das funções da mitologia e dos heróis: informar que não teremos que correr o risco sozinhos. Todos os heróis que nos procederam ajudam a encontrar o caminho pelo labirinto (do Minotauro).
“Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro” (p. 31-32).
Um dos maiores legados de Campbell foi destacar que existe um padrão na maioria destas aventuras: o herói se afasta do mundo, penetra em alguma fonte de poder e retorna com a vida enriquecida para si e para sua comunidade. Estas histórias, dentro deste padrão, não só podem trazer significado para a vida contemporânea, como mostra a unidade do espírito humano em termos de aspirações, poderes, vicissitudes e sabedoria.
Há três estágios nesta aventura circular, sendo cada estágio composto de algumas etapas:
1)     Separação ou partida
a.      O chamado da aventura
b.      A recusa do chamado
c.      O auxílio sobrenatural
d.      A passagem pelo primeiro limiar
e.      O ventre da baleia
2)     Provas e vitórias da iniciação
a.      O caminho de provas
b.      O encontro com a Deusa
c.      A mulher como tentação
d.      A sintonia com o pai
e.      A apoteose
f.       A bênção última
3)     O retorno e reintegração à sociedade
a.      A recusa do retorno
b.      A fuga mágica
c.      O resgate com ajuda externa
d.      A passagem pelo limiar do retorno
e.      Senhor de dois mundos
f.       Liberdade para viver
A aventura toda é caracterizada por um círculo, ou ciclo de evolução, de ida ao outro mundo e retorno. O círculo sempre caracterizou a ideia de evolução, mas também de perfeição, vazio e continente.
“O círculo representa um ninho […] o mundo para que as pessoas vivam. Se se for ao topo de um monte elevado ver-se-á o céu tocando a terra. Logo, os círculos que fazemos não são apenas ninhos; mas também representam […] local de morada de todos os povos. Os círculos também representam o grupo de parentesco, o clã, a tribo” (p. 46).

1.a) O chamado da aventura

O chamado é o descerramento das cortinas de um mistério de transformação: um ritual ou momento de passagem espiritual. Quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O que era familiar foi ultrapassado. O velho padrão já não é mais adequado. O chamado pode ter inúmeras formas, mas não é raro encontrá-lo sob a forma de sonhos.

1.b) A recusa do chamado

Uma recusa pode se apresentar como fixações desesperadas de compreensão psicanalítica. Representam a impotência em abandonar o ego infantil. Ocorre um aprisionamento pelos muros da infância.

1.c) O auxílio sobrenatural

Aos que não se recusaram ao chamado, há um primeiro encontro com uma figura protetora, sábio ou ancião, que fornece ao aventureiro objetos de poder para proteção contra as forças titânicas a se deparar.

1.d) A passagem pelo primeiro limiar

Aqui se dá o primeiro passo dentro do sagrado, do mistério, dentro da fonte universal. Este limiar ou portal pode ser guardado por feras, deuses ou demônios, como o deus Pã, que causava pânico aos que tentavam escapar do próprio inconsciente agitado, levando o aventureiro a “morrer de terror”. Podem ser a um só tempo perigosos e distribuidores de poder mágico.

1.e) O ventre da baleia

“A ideia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia” (p. 91). Então, há um movimento para dentro, para que possa nascer de novo. “O desaparecimento corresponde à entrada do fiel no templo – onde ele será revivificado pela lembrança de quem e do que é” (p. 92).

2.a) O caminho de provas

Após cruzar o limiar, a paisagem torna-se onírica, na qual o herói deve sobreviver a uma sucessão de provas. A jornada na escuridão entre os tortuosos caminhos do próprio labirinto espiritual é cheia de figuras simbólicas, não menos maravilhosa do que uma jornada no mundo selvagem. É um estágio de “purificação do eu”, “concentrado em coisas transcendentais”, de sentidos purificados e tornados humildes, também referido modernamente como um processo de dissolução, transcendência ou transmutação das imagens infantis do passado pessoal.

2.b e c) O encontro com a deusa

“A aventura última, quando todas as barreiras e ogros foram vencidos, costuma ser representada como um casamento místico […] da alma-herói triunfante com a Rainha-Deusa do Mundo” (p. 111). “A mulher representa, na linguagem pictórica da mitologia, a totalidade do que pode ser conhecido. O herói é aquele que aprende” (p. 117). Logo, é um atingir da sabedoria.

2.c) A mulher como tentação

Campbell expressa que em algum momento da jornada o herói entra em contato com o aspecto selvagem da própria vida, da sua carne, da sua humanidade imperfeita, das suas entranhas. Ele vai ser tentado e vai sentir repulsa por estas tentações, simbolicamente, neste caso, a mulher, representando a vida, a carne, a natureza.

2.d) A sintonia com o pai

A seguir poderá o herói encontrar um pai, um poderoso protetor, uma fonte de energia, um sol, um eremita, por meio do qual o herói será iniciado a um mundo mais amplo. Pode neste caso ocorrer os famosos rituais masculinos de marcação da passagem do infante para o adulto, ou do ser humano para uma nova fase. Normalmente é um validador das tragédias por que passa o herói na grande dança cósmica.

2.e) A apoteose

Aqui a deificação do herói, o ponto culminante, o êxtase. Pode tratar-se de uma batalha final ou um alcançar triunfal de um cume espiritual, um nirvana. Numa eventual batalha final com o inimigo arquetípico, o inimigo inconsciente, o pai. Campbell acredita que este aspecto mitológico e arquetípico se transforma na irresistível compulsão pelas guerras e violência pública: o impulso de destruir o pai.
Também Campbell vai aqui estabelecer paralelos entre a mitologia e o moderno estudo da psique. Há 
“uma certa semelhança entre essa antiga doutrina mitológica da dinâmica da psique e os ensinamentos da moderna escola freudiana. […] O instinto de vida (erosou libido) […] e o instinto de morte (thanatos ou destrudo) […] são os dois impulsos que não só movem o indivíduo a partir de dentro, mas anima igualmente, para ele, o mundo circundante. […] A psicanálise é a técnica para curar indivíduos que sofrem excessivamente com os desejos e hostilidades inconscientemente mal dirigidos que se acham agregados em torno de suas teias privadas de terrores irreais e atrações ambivalentes […] e isto não apenas por meio do reajustamento do desejo (eros) e da hostilidade (thanatos) […], mas por meio da extinção dos impulsos e das suas próprias raízes […]” (p. 155-156).

2.f) A bênção última

Refere-se a ter a anuidade da fonte da sabedoria. É ultrapassar os horizontes. “A mente quebra a esfera limitadora do cosmo e alcança uma percepção que transcende todas as experiências da forma – todos os simbolismos, todas as divindades” (p. 178).
“Todas as coisas encontram-se em processo, ascendendo e retornando. As plantas tornam-se botões, mas apenas para voltarem à raiz. Retornar à raiz é como buscar a tranquilidade. Buscar a tranquilidade é como caminhar ao encontro do destino. Caminhar ao encontro do destino é como a eternidade. Conhecer a eternidade é iluminar-se; não reconhecer a eternidade produz a desordem e o mal.
“O conhecimento da eternidade nos torna magnânimos; a magnanimidade leva à ampliação da visão; a ampliação da visão traz a nobreza; a nobreza é como o céu.
‘O celeste é como o Tao. O Tao é eterno. Não temei o desaparecimento do corpo” (Tao Te Ching, apud Campbell, p. 177).

3.a) A recusa do retorno

Terminada a busca, o aventureiro deve retornar com seu troféu transmutador da vida. Mas isto tem sido objeto de frequentem recusa. O herói muitas vezes desejará fixar residência na morada imortal.

3.b) A fuga mágica e 3.c) O resgate com ajuda externa

Uma bênção divina pode ser necessária caso o herói, com seu triunfo em mãos, precise de ajuda para reingressar no mundo cotidiano. Como esta passagem pode ser difícil, pois ele pode estar envolto em perseguições ou contratempo, a ajuda divina pode ser invocada ou oferecida.

3.d) A passagem pelo limiar do retorno

Esta passagem é como a saída do útero, o renascimento do herói. No entanto, renascido, encontrará ainda um desafio fundamental:
Como ensinar de novo, contudo, o que havia sido ensinado corretamente e aprendido de modo errôneo um milhão de vezes, ao longo dos milênios da mansa loucura da humanidade? Eis a última e difícil tarefa do herói. Como traduzir, na leve linguagem do mundo, os pronunciamentos das trevas, que desafiam a fala? Como representar, numa superfície bidimensional, ou numa imagem tridimensional, um sentido multidimensional? Como expressar, em termos de ‘sim’ e ‘não’, revelações que conduzem à falta de sentido toda tentativa de definir pares de opostos? Como comunicar, a pessoas que insistem na evidência exclusiva dos próprios sentidos, a mensagem do vazio gerador de todas as coisas? […]
“O primeiro problema do herói consiste em aceitar como real, depois de ter passado por uma experiência da visão de completeza, que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as banalidades e ruidosas obscenidades da vida. Por que voltar a um mundo desses?” (p. 215).

3.e) Senhor de dois mundos

O herói é recompensado com a liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos.

3.f) Liberdade para viver

Por que, afinal de contas, toda esta aventura?
“O alvo do mito consiste em dissipar a necessidade dessa ignorância diante da vida por intermédio de uma conciliação entre consciência individual e vontade universal. E essa reconciliação é realizada através da percepção da verdadeira relação existente entre os passageiros fenômenos do tempo e a vida imperecível que vive e morre em todas as coisas” (p. 232).

Mitologia, o homem e o cosmos

A psicologia moderna influencia e a mitologia e vice-versa na medida em a primeira descobre que os princípios, padrões e lógica inerente aos contos de fada e do mito correspondem aos princípios, padrões e lógica dos sonhos. Através dos contos, dá-se uma expressão simbólica aos desejos e tensões inconscientes. “A mitologia é psicologia confundida com biografia, história e cosmologia” (p. 251).
Mas eles, os mitos, não são tão somente sintomas do inconsciente, mas declarações de princípios espirituais, nevrálgicos da psique humana. Entre estes princípios, a percepção da força que sustenta as manifestações do cosmos. Outra compreensão é de que as formas de sensibilidade e as categorias do pensamento humano, elas próprias, limitam a percepção das manifestações desta força. Entra a função do sonho, do mito e do ritual: facilitar o salto, por analogia. O sonho, o ritual e o mito são penúltimo nível de abertura a esta força; o último é o vazio, o ser ou o Todo que se acha além das categorias.
Na mitologia, toda vez que o Todo assume o centro das atenções, há uma miraculosa espontaneidade na ação no Universo. Porém, quando a perspectiva muda e se passa a concentrar nas formas do mundo vivo, tudo já não parece se movimentar de modo harmonioso, crescente e vivo.
Porém, “a contemplação da vida deve ser empreendida como uma meditação a respeito do nosso próprio caráter divino, e não como um prelúdio à imitação precisa; a lição não é ‘Faça isso e seja bom’, mas ‘Conheça isso e seja Deus’” (p. 311). “Cada pessoa traz dentro de si mesma o todo; por conseguinte, é possível procurá-lo e descobri-lo no próprio íntimo. As diferenciações […] não são essenciais ao nosso caráter; não passam de trajes […]” (p. 370). 
“O alvo não consiste em ver, mas em realizar aquilo que se é, a essência; e assim ficarmos livre para vagar, como essa essência, pelo mundo. Além disso, o mundo também é feito dessa essência. A essência de cada um de nós e do mundo é a mesma” (p. 371). 
“O caminho para nos tornamos humanos consiste em aprender a reconhecer contornos de Deus das prodigiosas modulações da face do homem” (p. 374).
“O herói moderno, o indivíduo moderno que tem a coragem de atender ao chamado e empreender a busca da morada dessa presença, com a qual todo o nosso destino deve ser sintonizado, não pode — e, na verdade, não deve — esperar que sua comunidade rejeite a degradação gerada pelo orgulho, pelo medo, pela avareza racionalizada e pela incompreensão santificada. ‘Vive’, diz Nietzsche, ‘como se o dia tivesse chegado’. Não é a sociedade que deve orientar e salvar o herói criativo; deve ocorrer precisamente o contrário. Dessa maneira, todos compartilhamos da suprema provação — todos carregamos a cruz do redentor —, não nos momentos brilhantes das grandes vitórias da tribo, mas nos silêncios do nosso próprio desespero” (p. 376).

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