Já escrevi e resumi algumas obras de interesse para homens sistêmicos neste blog. Parece vir bem a calhar relembrar o que é um homem sistêmico e como aquilo tudo que aqui é escrito se encaixa.
Um homem sistêmico é um homem em inteireza. É feito daquele todo sagrado de cada uma de suas partes resgatadas. Vive por todos os seus relacionamentos, entrega-se à rede e se tece com ela. Dança a circularidade dos caminhos da vida, humanizando máquinas e celebrando a sacralidade em todo organismo vivo. Acumula qualidades extraídas de suas sombras. É objetivo pelo bem do amor e declara corajosamente seus valores. Rege-se pela verdade da justa medida interior. Abraça a incerteza, a variância e a aproximação. Abre mão do controle promovendo auto-organização, autonomia, cooperação e ação não violenta. Não é perfeito, mas está em perfeita evolução.
Eu diria que, por exemplo, dentre muitos, Jung é um homem sistêmico.

Jung, Carl G. Sonhos e Transformações. Petrópolis, Vozes, 2014.

Os registros contidos nesta obra são palestras e sessões de perguntas ocorridas no Instituto C. G. Jung em 1958. Jung tinha por volta de 83 anos. Seguem abaixo alguns extratos de interesse:
Perguntado “Em que consiste em si a sombra da psicologia analítica?”, Jung, entre outras considerações, explica que apenas explicar a psicologia analítica já seria um trabalho monstruoso, que dirá a sua sombra. Ela seria quase tão grande quanto a própria coisa, pois são simétricas. Desta forma, elas se complementam ou compensam. Ainda assim, “pensar a respeito do oposto de algo complicado é extremamente difícil – e a psicologia complexa é o que há de mais difícil” (p. 14). Ainda que difícil de descrever, ela existe e aqueles identificados com a psicologia analítica (ou junguiana) estão presos ou são influenciados por esta sombra. Para não estar a ela preso, é necessário descobrir o que melhorar nela. Ainda, é preciso lembrar que a compreensão de qualquer coisa na psicologia só ocorre quando também a vivenciamos e isto avança até a região do fazer e da experiência.
Ainda que Jung considere a psicologia e sua sombra, assim como qualquer coisa e sua sombra, simétricas, há um “quê” de assimetria, pois o ser de fato não é simétrico, na medida que não é estático: “ao invés disso o ser é um equilíbrio instável – por causa da assimetria” (p. 24).
Jung expressa, nesta obra, algumas páginas sobre anima e animus. Especialmente sua natureza primitiva. Isto inunda o indivíduo também de uma natureza primitiva. Naturalmente, em sociedade, é difícil ser aceita. Isto leva a um “problema impossível”: está lá e não pode ser aceita. Jung afirma que encontrar tais problemas impossíveis é essencial na análise: “é impossível analisar alguém enquanto não se chega a um problema impossível. Quer dizer, um problema sem saída”. Recomenda que o psicólogo seja honesto diante de tais problemas: “Eu digo a uma pessoa deste tipo é o seguinte: ‘Vá dormir, pense sobre todas as coisas que a preocupam, sobre a questão impossível de ser respondida e veja o que sonha’. Não tenho resposta” (p. 43). Por isso é preciso entender os sonhos – eles, ou o inconsciente, terão algo a falar: “Pois apenas os sonhos podem responder de forma apropriada, mais ninguém. […] A única resposta é o inconsciente, e então naturalmente diremos: ‘Ah!, o inconsciente” O que ele sabe? O que pode vir de lá?’ Como se soubéssemos qualquer coisa sobre a psique. É uma hybris maldita, nós não sabemos de nada!” (p. 44).
Para Jung, usando um termo dos povos de Labrador chamados Naskapi, há um “Grande Homem” em nós e é isso que é chamado de inconsciente. Jung rende-se ao seu poder para curar: “Se for um erro, o inconsciente o corrigirá. Mas os senhores acreditam que o inconsciente seja capaz de corrigi-lo, os senhores iriam tão longe assim? Ninguém pensa que o inconsciente possa dizer algo substancialmente importante” (p. 45). “A hybris do intelecto não nos leva a lugar algum. Por isso, precisamos aceitar o que o inconsciente produz e cabe a nós entender sua linguagem. É a linguagem da natureza. Não é a nossa linguagem, é a lógica da natureza, a inteligência da natureza e a moralidade da natureza que precisam ser traduzidas para uma forma humana” (p. 46).
Jung afirma o poder da atitude mais que das palavras nas relações e no consultório: “Aquilo que somosé tão mais forte do que as nossas medíocres palavras. O paciente é permeado pelo que somos, não pela nossa fala”. E acredita na força da vida sincera existente na relação com o paciente: “O analista tem determinados problemas não resolvidos, pois está vivo. […] Então, vejam, é totalmente possível um daqueles problemas vir à tona, entrar em cena e bem provavelmente o fará. Isso explica aqueles casos bem frequentes […] onde certos analistas recebem certos pacientes que formam o [… emplastro] particular de que necessitam. Recebem justamente aquele caso que os confronta com eles mesmos. […] O analista é fadado a conhecer os seus próprios complexos. Deve temê-los para que seja capaz de admitir o seu ponto fraco quando o paciente tocar neles.” Jung ainda admite que pode até contar ao paciente quando sonhou com ele: “Quando sonho com ele, [isto] constitui um problema. Tocou em algo em mim onde não sou o mestre, não estou no comando das minhas próprias questões […] então ele me traz um sonho que elucida meu próprio problema” (p. 48-49).
Levar a cabo a questão da compaixão no consultório é um ato de coragem. Veja esta passagem: “Quando levamos um paciente a sério e desejamos de fato ajudá-lo, então devemos nos identificar com ele e nos perguntar: ‘Como eu agiria nesta situação?’ Apenas se pensarmos dessa maneira e partilharmos desta mentalidade, o paciente perceberá que compartilhamos verdadeiramente seu problema como se fosse de fato o problema do analista. […] Quando tenho um afeto, tenho um afeto! E ocasionalmente também provei isso para as pessoas – de fato – que tenho um afeto! [Risos] Não quero lhes contar o que já aprontei neste sentido. Mas dessa forma encurtamos uma análise por anos!” (p. 58-59).
E sobre um vislumbre da visão espiritual de Jung: “[…] Como podemos presumir que um Deus vivo necessita de uma igreja? Se não for capaz de se manifestar fora de uma igreja, há algo de muito suspeito. Um Deus assim significaria terrivelmente pouco para mim. Veja, a questão não é encontrar um recipiente; nós somos o recipiente, nós somos o instrumento e, se não funcionamos enquanto tal, então não temos um espírito” (p. 70).

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