É muito difícil falar de uma obra de Castaneda. Fui fortemente influenciado a ler “O Presente da Águia” porque meus amigos dizem “que é o melhor livro de Castaneda” e porque ele fala de sonhos. Então, aventurei-me. Com muito gosto.
Vou traçar algumas considerações a esmo. Não vejo uma forma organizada para poder falar do livro.
A primeira coisa que gostaria de compartilhar é um ensinamento que minha grande amiga tradutora Cristina Bazán me passou, certa feita: “para se fazer uma tradução com fidelidade de uma obra, você tem que entrar para ‘dentro da cabeça do autor’”. A Cristina é uma guerreira impecável e faz traduções como ninguém que eu conheça. Vale o mesmo para “interpretar” Castaneda. Quer arranhar a superfície do que é este autor? Entre dentro da sua cabeça. Pois uma coisa é ler a obra como se lê qualquer obra literária. Outra é entrar dentro da cabeça. E, ao tentar fazer isso, confesso minha ignorância ao chegar próximo aos mistérios de que fala o autor. E declaro, maior e mais infinita ainda é minha ignorância diante do Mistério.
Outro aspecto do entrar “dentro da cabeça do autor” é pensar como seu eu próprio fosse o autor daquela obra. Se você algum dia já tentou escrever criativamente tem um vislumbre do esforço de outro autor ao escrever. Muitos investigam e oferecem seus “chutes” a respeito de quanto da obra de Castaneda é ficção. Vou oferecer minha opinião a este respeito. Minha impressão, baseado na minha experiência, é de que 40% dos livros de Castaneda é factual, 60% é “real” e 35% é ficção. Ah, não fechou 100%? Pois é…
A segunda, apresento alguns poucos extratos do livro que gostaria de ressaltar. Não estão aqui por importância, mas por terem me chamado a atenção. Para começar, Castaneda fala de dois “tipos” básicos pessoas: as que sonham e as que espreitam:
“Dom Juan tinha descrito a arte de sonhar como a capacidade de utilizar os sonhos comuns da pessoa e transformá-los numa conscientização controlada, em virtude de uma forma especializada de atenção, que ele e Dom Genaro chamavam de ‘a segunda atenção’” (p. 9). Interpreto sonhar como controlar sonhos, visualizações, meditações e estados alterados de consciência. Já a “[…] arte de espreitar me foi apresentada como um conjunto de procedimentos e atitudes que permitiam à pessoa conseguir tirar o melhor proveito possível de qualquer situação concebível” (p. 9). Interpreto espreitar como a capacidade de estar presente, ter Presença e fluir em qualquer circunstância.
O próximo trecho, um pouco mais longo, é muito didático: “- O nagual disse que [a pirâmide tolteca de Tula] era uma guia da segunda atenção – continuou Pablito – mas que foi explorada e que destruíram tudo. Ele me falou que algumas pirâmides eram gigantescos lugares de não fazer. Não eram moradas, mas lugares dos guerreiros desenvolverem seus sonhos e exercitarem sua segunda atenção. O que quer que fizessem era registrado em desenhos e figuras nas paredes. […] Tinha dito que nosso ser total consiste em dois segmentos perceptíveis. O primeiro é o corpo físico conhecido que todos nós podemos perceber; o segundo é o corpo luminoso, um casulo que só os videntes conseguem perceber, um casulo que nos dá a aparência de ovos luminosos gigantescos. Tinha dito também que uma das metas mais importantes da feitiçaria é alcançar o casulo luminoso, uma meta que é conseguida pelo uso sofisticado do “sonho” e por um empreendimento rigoroso e sistemático a que ele dava o nome de não fazer. Definia o não fazer como um ato pouco familiar, que envolve todo o nosso ser ao forçá-lo a se tornar consciente do seu segmento luminoso. […] A fim de explicar esses conceitos, Dom Juan fez uma divisão de três partes desiguais da nossa consciência. Chamou à menor “primeira atenção”, a consciência que toda pessoa normal desenvolve, a fim de lidar com o mundo diário; ela abrange o conhecimento do corpo físico. À outra parte maior deu o nome de “segunda atenção”, o conhecimento de que precisamos para perceber nosso casulo luminoso e para agir como seres luminosos. Disse que a segunda atenção permanece como pano de fundo durante toda a nossa vida, a não ser que seja transportada através de treinamento deliberado ou por um trauma acidental, e que ela abrange o conhecimento do nosso corpo luminoso. Chamou à última parte, a maior, de “terceira atenção”, uma consciência incomensurável que envolve aspectos indefiníveis do conhecimento dos corpos físico e luminoso” (p.19-20)
Vejo aqui que as pirâmides (e vários outros locais sagrados, templos, incluindo a natureza) como locais de exercício da Magia, nos seus mais variados estilos, aqui citado como a arte de não fazer e desenvolver a segunda e terceira atenção, ou seja, meditar, dançar, sonhar, usar substâncias que alteram a consciência, bater tambor, entoar mantras, fazer sexo, entre muitas e muitas outras maneiras de não fazer e entrar em contato com o Mistério. Não fazer é não fazer coisas ordinárias, parar tudo, especialmente o pensamento, entrar em contato com o Silêncio, o Vazio, o Não-eu.
Em especial, para Castaneda, um obcecado por tomar notas e escrever, não fazer tinha o seguinte sentido: “A recomendação de Dom Genaro não era uma brincadeira, pois escrever com a ponta do meu dedo num pedaço de papel, como não fazer de tomar notas, forçaria minha segunda atenção, a focalizar a minha lembrança sem acumular folhas de papel. […] – Quando você se preocupa com o que fazer com as suas folhas – explicou Dom Juan – está focalizando uma parte muito perigosa de você mesmo nelas. Todos nós temos esse lado perigoso, essa fixação. Quanto mais forte ficamos, mais perigosa essa parte se torna. A recomendação para os guerreiros é não ter nenhuma coisa material na qual focalizar seu poder, mas focalizá-lo no espírito, no verdadeiro voo ao desconhecido, e não em campos triviais. No seu caso, suas notas são o seu escudo. Elas não o deixarão viver em paz. […] – Todo mundo que quer seguir os passos de guerreiro, o caminho de feiticeiro, tem de se livrar da sua fixação” (p. 22-23).
E sobre o que significa sonhar: “- Somos todos sonhadores. […] Ele [Dom Juan] disse que o sonho é intrinsecamente o não fazer de dormir. […] Um não fazer básico designado a ajudar o sonho, era o não fazer de falar, chamado ‘parar o diálogo interno’. Os dois se combinam no sentido de que parar o diálogo interno traz a paz necessária e descansa a mente dos praticantes, e isso por sua vez ajuda-os a controlar seus sonhos. […] Os sonhadoresnão sentem falta de sono, mas o efeito de sonharparece ser o aumento do tempo através do uso de um pretenso corpo extra, o corpo sonhador. […] Dom Juan explicou-me que o corpo sonhador é às vezes chamado de ‘o sósia’ ou ‘o outro’. […] É basicamente a energia de um ser luminoso […] que é projetada pela fixação da segunda atenção numa imagem tridimensional do corpo” (p.23-24). Creio que os praticantes do sonho lúcido e os meditadores, entre muitos outros mágicos e místicos, tenham uma noção do que Castaneda está descrevendo.
Castaneda até descreve alguns estágios do sonhar lúcido, com outras palavras e de uma maneira ligeiramente diferenciada pela sua própria experiência, assim como muda palavras e processos de muitos outros conheceres, xamânicos ou não. Fala da vigília repousante, da vigília dinâmica, do presenciar passivamente e da iniciativa dinâmica. Apesar de perceber estes paralelos, não me darei ao trabalho de estabelece-los aqui neste momento, especialmente os estágios citados por Castaneda e o que os teóricos e praticantes do sonho lúcido mencionam, o que poderá ocorrer em algum tempo futuro. Castaneda também menciona detalhes para incubar a lucidez nos sonhos, especialmente a partir da página 112. Para os interessados, vale uma espiada.
Naturalmente, o mais instigante aspecto do livro é a própria Águia. Não vou interpretar o que compreendo por Águia para não adiantar ao não leitor do que trata o livro. Posso apenas mencionar que nossa trajetória como “guerreiros impecáveis” é muito bem recebida pela Águia, atingindo ou não a meta, o que pessoalmente é muito libertador.
Por fim, como dizia Pierre Weil, a Consciência Cósmica é inefável, ou seja, não se pode exprimir com palavras. Assim é o Mistério e a maioria das coisas que arranham a superfície do Mistério, como o trabalho de Castaneda. Mesmo de difícil explicação, leia “O Presente da Águia”. É imperdível, assim como grande parte dos seus livros.

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