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A obra trata dos deuses gregos como arquétipos ou modelos para a psique do homem moderno, dentro de uma estrutura patriarcal, como o são os deuses clássicos do Olimpo. A autora, como mulher, serve de modelo de intérprete para a vida íntima dos seus homens e como projeto da figura feminina íntima dos homens: a anima.
Arquétipo é uma ideia junguiana que trata de padrões preexistentes, latentes e internamente determinados de ser, comportar-se, perceber e reagir. Eles estão contidos no inconsciente coletivo e podem ser oriundos de antigos mitos e temas universais do legado humano comum. São “familiares” a respeito da natureza humana e funcionam como uma estrutura básica de padrões psicológicos.
Saber que arquétipos de deuses estão ativos permite ao homem fazer escolhas, sabendo de opções ou rumos que são mais satisfatórias. Os arquétipos moldam intimamente os homens e os predispõem poderosa e invisivelmente a padrões de pensamento e comportamento. Infelizmente, a maioria destes modelos são ativados e criam uma cultura patriarcal, obrigando-nos a uma conformidade. Há homens, por força de seus modelos, que cabem nesta cultura e, por isso, o sucesso é fácil e prazeroso, mas há também o inverso. Esta situação obriga a “amputações” e “esticamentos” de personalidade para corresponder às expectativas. Em todos os casos, muitos homens estão se perguntando sobre o sentido disto, por conta da perda de contato com as fontes interiores de vitalidade e alegria.
A obra trata dos deuses gregos, especialmente sobre Zeus e os olímpicos, mitos que são histórias de família. Os gregos antigos são descendentes dos indo-europeus com seus deuses guerreiros que invadiram a Europa para conquistar os “primitivos adoradores de deusas”. São mitos popularizados por Homero (750 a.C. – Ilíadae Odisséia) e por Hesíodo (700 a.C. – Teogonia).

1. Patriarcado

Os arquétipos podem ser fonte de contato com estas energias e de consciência sobre a discrepância com os papéis exigidos pela cultura. O patriarcado tem seus deuses “favoritos”, que são aqueles que se relacionam bem com a aquisição de poder, o pensamento racional e o controle. Ser um desses deuses é passaporte para o sucesso. Ser contrário a isto é ter dificuldades na vida. Para ser sucesso, os homens “esticam” ou enfatizam aquelas características e “amputam” suas qualidades emocionais, sensuais, vulneráveis ou instintivas. Assim, é evidente que o patriarcado, ratificado pela mitologia dos deuses gregos, é hostil contra os filhos, tratados de maneira distante ou rejeitados pelos pais.
Os deuses ajudam o homem a ser quem realmente é e motivam-no a levar uma vida de sentido. Pode ser dominante da estrutura de personalidade de um indivíduo, ou pode marcar alguma fase específica da vida do homem. Conhecer os deuses é uma fonte de poder pessoal, pois promove o autoconhecimento e a autoaceitação.
O patriarcado moderno está reforçado pelo pensamento mecanicista cartesiano. Nossos mitos de homens poderosos, como Darth Vader, O Poderoso Chefão ou os empresários magnatas simbolizam bem os homens reais que usam “máscaras de metal” e lembram máquinas eficientes e impiedosas construindo instituições mecanicistas e que necessitam do controle para manter o poder. São como os deuses celestes gregos, Urano, Cronos e Zeus, que rejeitaram seus filhos por temerem que desafiassem sua autoridade.

2. O mito – uma história de família

Do vazio, materializou-se Gaia (Terra). Deu à luz as montanhas, o mar e Urano (Céu). Gaia e Urano casaram-se e tiveram doze filhos, os Titãs. A grande capacidade procriativa de Gaia deixava Urano ressentido, então ele escondeu os novos recém-nascidos no corpo de Gaia para que não vissem a luz do dia. Gaia pediu auxílio aos primeiros Titãs, angustiada pela selvageria do pai e solicitando a vingança: “[…] foi ele quem começou a usar de violência” (Hesíodo, citado por Bolen, p.42). É o início do mal. Tomados de medo, dos Titãs apenas Cronos atendeu ao pedido de ajuda: “Não tenho nenhum respeito por este pai infame” (idem). Ao castrar o pai, Cronos torna-se a mais poderosa divindade masculina.
Cronos casa-se com sua irmã Reia. Desta união é gerada a primeira geração de olímpicos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Poseidon e Zeus. Por medo de ter o destino de ser suplantado por um de seus filhos, também Cronos engole cada criança ao nascer. Para evitar mais uma vez o destino, Reia apresentou uma pedra ao invés do filho recém-nascido Zeus, e Cronos engoliu a pedra em sua afobação. De fato, Zeus destronou o pai e tornou-se regente supremo do Olimpo. Obrigou o pai a regurgitar seus irmãos, derrotando-o com a ajuda de Métis, deusa pré-olímpica da sabedoria, sua primeira esposa. Violência gera violência, já na terceira geração. Zeus, Poseidon e Hades tiram na sorte para repartir o universo (as irmãs, pela cultura grega, não tinham direito a propriedades). Zeus fica com o céu, Poseidon com as águas e Hades com o mundo inferior.
Pai da geração seguinte de divindades, também Zeus se sente ameaçado pelo destino de ser suplantado por um filho. Fez com que Métis fosse encolhida e engoliu-a, grávida de uma criança.
Esta história e seus detalhes, omitidos neste resumo, indicam muitas características em comum entre a mitologia grega e a mitologia das culturas patriarcais e com a situação dos homens, hoje. Os deuses patriarcais são autoritários. Governam do alto. Apesar de todo o poder, sentem medo de ser suplantado pelos filhos. Ele os mantém no escuro, assim como as suas mulheres, demonstrando como o patriarcado engoliu o matriarcado. Pais matam os filhos, supostamente por uma profecia, mas trata-se de uma ideia paranoide ou a projeção da própria sombra. Os homens tornam-se regentes territoriais com súditos, estabelecendo uma hierarquia de homens, com Zeus ao alto, o mesmo que ocorre nas corporações modernas. As mães são impotentes e os homens, em idade adulta, acabam descontando em outras mulheres a raiva desta impotência que sentia quando então criança. Elas próprias descontam esta raiva em homens impotentes – os filhos pequenos – especialmente quando os primeiros traços de semelhança com o pai aparecem.
Na cultura patriarcal, o lar e a família é governada com autoridade de rei. Os filhos são rivais e sentem-se desprotegidos e distantes emocionalmente, engendrados em uma competição. Os pais são implacáveis em suas críticas. Tal competição é ativada já na gravidez, por conta de reminiscências afetivas da própria infância, tornando-se o homem menos central. O nascimento do filho, especialmente o primeiro, é sua iniciação para a próxima etapa da vida. O medo de inadequação e incapacidade e a perda da centralidade na vida da mulher estimula o medo irracional de que o bebê possa não ser seu. Sente o horror que é ficar preso ao ter um filho, por exemplo e é obrigado a manter um trabalho que não traz satisfação. Quando o bebê se torna efetivamente o centro das atenções, confirma a profecia de que ele o suplantaria. Cria-se a raiva do “intrometido”, da esposa que o “largou”, sentimentos que encobrem medos ainda mais profundos de abandono e de ser insignificante. A menos que o filho seja “engolido” e a mulher “diminuída”, é certo que a criança um dia desafiará seu poder e tirar-lhe-á a autoridade. E isto se repete geração após geração. Este ciclo só pode ser rompido quando “o pai cuida de seu filho, brinca com ele, serve-lhe de mentor e é um modelo positivo de papel para ele” (p. 55).
Em toda a mitologia patriarcal ocorre comumente também a ideia do sacrifício da criança. É fiel aos deuses aquele que é capaz de dar o próprio filho em sacrifício como prova. É o que acontece metaforicamente na vida moderna. Homens bem-sucedidos são pais ausentes, emocional e fisicamente distantes dos filhos. Sacrificam os filhos em nome do papel social. E sacrificam também a criança interior. A cultura patriarcal é hostil à inocência. Não há lugar no acampamento militar nem no mercado para empatia ou compaixão pelo inimigo. Isto é visto como fraqueza. O lema do patriarcado é: obedeça à autoridade e faça o que for preciso para manter a autoridade que já tem.
Ambos, pai e filho, ficam ressentidos e, paradoxalmente, este é o contexto para que no futuro o filho acabe se comportando como o pai. O filho se identifica com o agressor, pois rejeita em si mesmo aqueles traços que provocaram a ira do pai, ou seja, os traços de “vulnerabilidade”, que é igualada a fraqueza, covardia e “moleza”.
Por todo o patriarcado há ritos hostis para iniciar membros de novas gerações. “O que me fizeram um dia eu faço com vocês” é o modelo mental de identificação com o agressor. Desta maneira, é realmente notável que alguns homens acabem conseguindo amar outros homens e confiar neles. Na mitologia moderna, é a situação de Luke Skywalker, de Guerra nas Estrelas, que encena o menino que não quer fazer parte de um império que busca poder sobre os demais.

3. Zeus, deus do céu, reino da vontade e do poder

O nome deriva do indo-europeu dyu, que significa “brilhar”, tendo como atributos abstratos a luz e o poder. Nos patriarcados, Zeus é o arquétipo dominante, o rei. De sua posição, no alto do céu, domina o horizonte com sua visão panorâmica e ampla do território e manda em tudo. Tanto para punir como para ser provedor, isto é feito do alto. Zeus é o arquétipo do bom estrategista e seu reino é o dos homens poderosos política e economicamente. Enfatiza o consciente, exaltando controle, raciocínio lógico e força de vontade.
Namorador de muitas consortes, foi pai de numerosa prole. Foi o primeiro que, numa mudança de atitude, acabou por ser generoso, protetor e confiante em seus filhos e filhas. Mas tinha também aspecto sombrio do pai destrutivo. Casar e ter filhos é uma extensão de si mesmo. É o pai de uma dinastia. Tem o impulso de ser pai e cuida do que é seu, arcando financeiramente com os custos, mas os filhos e subordinados devem prestar-lhe obediência. Pai mentor que espera em troca lealdade. Alguns filhos são favorecidos e preferidos; outros são rejeitados e maltratados.
Deseja autoridade e poder e corre riscos por estas metas. O raio e a águia são seus símbolos. É o barão dos negócios. Como arquétipo, é de ação decisiva e construção de grandes castelos. Decide de uma posição “distante”. Pode detectar movimentos ínfimos e agir para capturar a presa. Tem visão panorâmica e consciência dos detalhes importantes. É focado. Não se envolve emocionalmente: pode facilmente mudar de direção, contabilizar as perdas e seguir adiante, sem perder horas de sono. Consolida sua posição, se preciso, utilizando alianças (incluindo o casamento). A generosidade é moeda de troca para obter controle.
Zeus é aquele capaz de dizer “não” com autoridade. Sempre lidera as tropas. É o pequeno tirano em criança. Geralmente tem disposição positiva e extrovertida. Uma vez a pendência é resolvida, reina a paz. Não precisa ser ensinado sobre tomar iniciativa e trabalhar com afinco: é natural, assim como adquirir poder, dinheiro e bens. É erro para quem trabalha com Zeus pensar que lhe importam as pessoas. São os “machos alfas”. Emocionalmente distante, não é ligado à terra e nem tenta agradar as mulheres. Não é apaixonado.
Dificuldades psicológicas. Problemas e limitações são “naturais” ao domínio celeste. A ascensão tem custo emocional para si e outras pessoas. A falta de consciência de si e o poder, combinados, podem ser uma combinação destrutiva. Vive enfiado na cabeça – trabalha bem com ideias e abstrações, mas mal com as mãos e o corpo. É distante dos próprios sentimentos. Seu corpo não é receptivo, acolhedor ou sensual. Desligado do prazer com o corpo e desligado do coração. Imaturo emocionalmente, manifesta-se sensual e sexualmente de maneira distorcida, o que leva a vergonha e culpa. Não vê que a floresta é feita de árvores e é incapaz de amar uma. São seres “acima da lei”. Poder e paranoia podem andar juntos. Os homens do alto temem ser destronados e desconfiam dos outros, impedindo-os de crescer, justamente o que faz surgir os próprios inimigos temidos. Tem visão inflacionada de si mesmo, tornando-o suscetível a manipulações dos súditos, que o adulam. Em geral, rejeitam pessoas honestas e a verdade contrárias à sua visão própria inflada. Os filhos sentem-se emocionalmente abandonados ou rejeitados, desenvolvendo problemas de autoestima ao não corresponder às suas expectativas.
Modos de crescer.A mensagem de algo errado precisa ser transmitida ao homem Zeus, pois ele não está cônscio que está mortalmente afastado de si mesmo e dos outros… até que algo drástico aconteça. Normalmente não busca ajuda e o ataque do coração é o que mais ocorre. Para salvar a vida, precisa descer do topo, pois lá o “oxigênio que o coração necessita é rarefeito”. Grandes perdas o fazem “perder a cabeça” de tanto sofrimento e isto obriga-o a descer da montanha e tornar-se “mais humano”. Ainda assim, a mensagem tem que ser transmitida e pode ter o tom de uma pergunta, a mesma feita, em algumas versões, ao rei pescador ferido do castelo do Santo Graal: “O que te aflige?” “Qual é o problema?” Isto leva ao reconhecimento de que há algo errado. E, assim como no mito, a cura depende de que um inocente entre na situação, ou na psique, para responder e salvar o rei.

4. Poseidon, deus do mar, reino da emoção e do instinto

Também chamado de “portador das inundações” e “aquele que sacode a terra”, é o deus dos cavalos e dos oceanos, personificando os dois símbolos ancestrais do inconsciente. O fundo do mar é o reino dos sentimentos e instintos reprimidos. É capaz de mergulhar fundo nas emoções. É a dimensão da vastidão, da profundidade que ninguém jamais poderá plenamente conhecer ou atingir racionalmente. Expresso pelo poeta, dramaturgo, romancista, compositor, músico e psicoterapeuta. As culturas que passaram por grandes aflições tendem a valorizar a emotividade, a irracionalidade e a expressividade, a arte e a literatura são valorizadas e os homens têm permissão de acesso a estes âmbitos.
Sob a plácida superfície do mar, habita um deus emocionalmente tenso, que de uma hora para outra pode explodir. É o arquétipo paterno daquele “perdeu para” Zeus. Apesar da necessidade de “ser alguém importante”, Poseidon não tem o pensamento estratégico, a impessoalidade e a força de vontade de Zeus necessárias a tornar-se um rei celeste. Outra diferença para Zeus é que pode esquecer o que lhe era tão importante e perceber-se envolvido noutra coisa. Não é estratégico é não dá atenção ao tempo linear. O mundo submarino não pode ser visto do Olimpo e não foi descrito na mitologia grega, de modo que o acesso às profundezas emocionais é um aspecto desprezado na psique masculina. É o arquétipo que pode expressar o domínio da profundidade e da beleza.
É mal-humorado, violento, vingativo, destrutivo e perigoso, mas também consegue acalmar as águas. Virulento, encena o padrão de vingar-se até a “segunda e terceira geração”. É inimigo implacável e alimenta ressentimentos que não se apagam com o tempo. Apesar disso, também encena um aspecto pacífico e misericordioso.
As emoções são contidas ao invés de serem expressas quando brotam. Sua reação característica é causar inundações, afogando o pensamento racional. Se o homem Poseidon não consegue se impor no mundo, o lar se torna o único domínio onde pode se sentir rei. Na cultura patriarcal, Poseidon é o pai furioso que descarrega sua raiva em casa. Apesar disso, tolera a desordem quando várias pessoas fazem muitas coisas com variados graus de conclusão.
Outro de seus símbolos é o tridente, o falo triplo simbólico; é a afirmação de sua potente sexualidade e fertilidade. É o marido da virgem, da mulher e da velha sábia. Também é o marido da terra, como umidade necessária para que ela seja fértil. É também o arquétipo do selvagem do fundo do lago, como João de Ferro no conto dos Irmãos Grimm, símbolo da masculinidade instintiva. O conto mostra como o menino pode se tornar corajoso e amoroso e o selvagem orgulhoso rei.
O temperamento e as habilidades de Poseidon não são valorizados na maioria dos locais, sejam de trabalho intelectual, escritórios ou fábricas, seja na escola e academia. É um peixe fora d’água. Está em desvantagem com Zeus na cultura ocidental industrial, pois seus traços como lealdade e profundidade emocional não são valorizados. No entanto, em casa, podem ser maravilhosos pais no que tange à proximidade e ao envolvimento e educação emocional. Sem excluir a possibilidade de serem também terríveis pais e maridos, quando os maremotos emocionais e o desajuste social vêm acompanhados do álcool.
Por isso, o auxílio do poeta, escritor, músico, artista ou psicólogo podem ser úteis para lidar com as forças mudas e poderosas das profundezas e trazê-las à superfície.
Dificuldades psicológicas. É a sombra de Zeus. É o que se torna possuído pelos sentimentos e perde o juízo. Causador de maremotos e terremotos, com emoções e reviravoltas destrutivas. Ressentido, vingativo e retaliador. Sua autoestima é precária. Nestes casos, pode ser um terror conviver com ele.
Modos de crescer.Ocorre quando o domínio emocional encontra meios de se expressar por meio do trabalho, relacionamentos ou criatividade. Precisa desenvolver habilidades de observar e refletir objetivamente. Desenvolver um Eu consistente, observador, de modo a ter mais energia que os complexos, para que não “assumam” ou “possuam” a personalidade. Ter compaixão para consigo próprio e os outros. Abandonar a necessidade de dominar. Expressar-se criativamente. Desenvolver outros deuses e deusas.

5. Hades, deus do mundo inferior, reino das almas e do inconsciente

Hades é o sinistro, invisível, inexorável, implacavelmente justo e irrevogável deus da morte. Nem por isso é mau ou inimigo da humanidade. No sinistro escondem-se bens, riquezas e uma plenitude invisível encontradas na penumbra, no frio e nas trevas da noite escura da alma. Preside nossas descidas às sombras e o retorno à luz e renovação. O reino de Hades é o inconsciente, tanto pessoal como coletivo. Está também associado ao oeste remoto. Depressões e experiências de quase morte são iniciações ao seu reino. No Olimpo era muito temido, apesar de nunca ter sido considerado maldoso ou satânico.
Está associado com imagens como o inferno. Daí as associações com hell, em inglês, que provém de Hel, a rainha nórdica do mundo inferior e de Helman, o senhor celta da morte. Hellir, entre os nórdicos denotava santuário uterino ou caverna sagrada de renascimento – um útero-caldeirão repleto de fogo purgativo. O mundo inferior, originalmente território da mãe, torna-se depois território do pai. Mesmo assim, não teve filhos e sua mitologia é escassa, causa e consequência de sua invisibilidade. Uns poucos mortais entraram no mundo inferior e voltaram: Hércules, Psique, Odisseu, Enéas.
Como arquétipo de indivíduo, é a presença não notada. Governa a vida interior profunda. Raramente se aventura fora do mundo inferior. Vive em seu próprio mundo de sombras e de riqueza subterrânea da subjetividade do seu próprio mundo. É aquele que perdeu aquilo que antes tivera sentido, tornando-se eventualmente isolado e paranoico. Pode viver sozinho e no baixo-mundo, contente com o que lhe coube na vida. É o homem da função sensação de personalidade introvertida. Entretanto, sem a visão objetiva da realidade de Zeus e a reatividade emocional de Poseidon, corre o risco de ficar emocionalmente isolado em um mundo só seu. Raramente se expressa em emoções ou palavras. Apesar disso, é bom conselheiro. É o amante e o amigo imaginário.
Como arquétipo de lugar, é o plano subterrâneo para onde as almas vão após a morte e dos clinicamente deprimidos. É o lugar de pequenas descidas costumeiras no dia-a-dia. Também é o local para onde são enviadas as partes de nós que são inaceitáveis. É o local das sombras, ainda que Jung enxergue nelas aspectos positivos, como tesouros potenciais subconscientes. É o lugar de atividade de médiuns, funcionários de asilos e dos que trabalham com os mortos, dos deuses mensageiros tipo Hermes (veja a seguir), psicólogos e todos os que transitam entre mundos. E, como inconsciente coletivo, é o próprio lócus dos arquétipos ou padrões humanos universais.
Hades, o homem, é um desajustado, um invisível desde cedo manifestado. É aquele que se refugia no seu mundo interior, um autista, preferindo sua própria companhia. Não é padrão, não segue o modelo normal. Pode se tornar bem-sucedido se fizer da sua experiência interior seu ofício, especialmente se tiver um Hermes desenvolvido, realizando filmes, psicologia, literatura, trabalho hospitalar ou teologia. Tem dificuldades com as mulheres e com a vida social entre homens. Embora não tenha tido filhos, pode tê-los, mas será pai sombrio, de pouco humor e que espera organização e dever cumprido. Não teme a morte, acostumado com uma psique onírica.
Dificuldades psicológicas. Decorrem da sua perspectiva subjetiva e introspectiva. Aprendeu a ficar quieto e invisível por sofrer em ter sido muitas vezes “impróprio”. Tem predisposição para ser solitário e esquizoide. Sofre de complexo de inferioridade num mundo de Zeus, assim como as minorias sofrem no mundo dos brancos. Seu desempenho inferior nessa cultura é fonte de baixa-estima. É depressivo e árido emocionalmente.
Modos de crescer.Precisa desenvolver persona para se tornar visível e abordável e achar meios de expressar suas experiências interiores. Desenvolver sua anima permite que se expresse com delicadeza, emotividade e sentimentos, suavizando outros de seus aspectos. Hermes é um aliado: permite entrar e sair dos reinos e auxilia encontrando um vocabulário e linguagem para transmitir suas ricas vivências.
Os três deuses até aqui descritos são os deuses pais. A partir de agora são descritos os arquétipos dos deuses filhos. Há os prediletos de Zeus, Apolo e Hermes, pois ajudam os homens a seguir em frente no mundo patriarcal de Zeus; os rejeitados, Ares e Hefesto, que não usavam a mente nem as palavras; e o ambivalente Dionísio. Estas aceitações e rejeições são incorporadas ao psiquismo, de modo que também temos partes de nós mesmos aceitas e rejeitadas, ou tratadas de maneira ambivalente, uma vez que são moldadas pela cultura e pela família.
(Veja os demais deuses em postagem subsequente – clique aqui)

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