Organizado nos últimos meses logo antes da morte, este livro representou a autopermissão de Jung de editar um livro, em conjunto de seus principais discípulos, para um público mais abrangente e geral. Em “O Homem e Seus Símbolos”, Jung demonstra em caráter sintético sua visão da psique, dos caminhos que levam a ela e dos mitos e símbolos que a povoam.
Em comum aos autores dos vários capítulos, especialmente Jung no primeiro, a ideia de que aqueles de nós que se limitam a viver apenas numa vida do consciente e rejeitam ou ignoram o vasto inconsciente, limitam-se também a uma vida de leis mais formais e formatada pelos limites do consciente. O inconsciente é muito mais vasto, ilimitado e criativo, devido em parte ao seu caráter simbólico e emocional. Por isto, a integração do inconsciente leva ao ponto crucial do livro e da filosofia junguiana: “o homem só se torna um ser integrado, tranquilo, fértil e feliz quando (e só então) o processo de individuação está realizado, quando consciente e inconsciente aprenderem a conviver em paz e completando-se um ao outro” (p. 14).

1. Chegando ao inconsciente (Carl G. Jung)

A linguagem do inconsciente é simbólica, metafórica e arquetípica. As inúmeras coisas que fogem à compreensão integral do consciente são frequentemente representadas por símbolos. Entre estas coisas, a própria psique é uma delas, pois segundo Jung, “[ela] não pode conhecer sua própria substância” (p. 23).
A comunicação da linguagem simbólica do inconsciente nos chega pelos sonhos. São os campos mais acessíveis e produtivos de exploração para investigar a capacidade de simbolização dos seres humanos. Naturalmente, o inconsciente expressa-se de outras maneiras, como os sintomas de doenças e a neurose. Mas são igualmente simbólicos: “um paciente, por exemplo, que enfrenta uma situação intolerável pode ter espasmos cada vez que tenta engolir: ‘não pode engolir’ a situação” (p. 26). Analogamente, “não conseguir respirar o ar” de um local “sufocante”, ou dificuldade para andar pois a situação “não pode continuar assim” são exemplos deste simbolismo dos sintomas.
Parte do trabalho para esclarecer estes aspectos simbólicos é estabelecer um processo de livre associação. Jung concorda com Freud de que, na medida que o sonhador comente as imagens dos sonhos (ou dos sintomas), produzirá pensamentos que o farão “entregar-se”, revelando o fundo inconsciente de aspectos reprimidos e satisfação imaginária de desejos, ou seja, os complexos do paciente. Porém, Jung relativizou esta superestimada ênfase em livre associação a partir dos sonhos, observando que a livre associação pode partir de qualquer outro ponto (que não os sonhos) da vida do paciente e que esta livre associação poderia, frequentemente, levar para longe do ponto relevante apresentado no sonho. Jung começou a acreditar que a forma e o conteúdo direto do sonho tinham maior valor do que a livre associação, ou seja, as associações com o próprio sonho, convencido que o inconsciente seria capaz de expressar algo específico por meio do sonho. Jung tinha um objetivo mais avançado que descobrir os complexos causadores de distúrbio neuróticos, qual seja, compreender a estrutura e a dinâmica do inconsciente.
Nesta caminhada, descobriu que o sonho não pretende dizer como o sonhador deve se comportar, apenas. Ele age, muitas vezes, tentando contrabalançar a natureza mal equilibrada da consciência. Outra característica do inconsciente captada pelo estudo dos sonhos é sua capacidade de “tomar nota” de tudo, mesmo de percepções sensoriais sutis ou subliminares, muitas vezes não capturados pelo consciente, ou liberados de seu foco pela atenção seletiva, ou ainda “esquecimentos” de lembranças desagradáveis, ao que são chamados pelos psicólogos de conteúdos recalcados.
Estes e outros fenômenos mostram que as pessoas em geral superestimam a capacidade do consciente de “saber das coisas”, o papel da sua “força de vontade” e as suas decisões e intenções. As observações, ideias, imagens ou sentimentos do inconsciente por vezes deslocam-se ou emergem ao consciente, e este fica “desnorteado” e “surpreso” com tal afloramento. Lá estarão armazenados todo tipo de material subliminar, incluindo além dos citados, urgências, impulsos, percepções, intuições, pensamentos racionais e irracionais, conclusões, induções, deduções, premissas e emoções, de onde emergem, por exemplo, como símbolos nos sonhos. Todo este material torna-se inconsciente porque não há lugar para ele no consciente. Então, o inconsciente não é apenas um simples depósito do passado, mas está cheio de sementes de ideias e situações psíquicas: pensamentos inteiramente novos e ideias criativas podem dele surgir.
Além disso, o relacionamento consciente x inconsciente é recheado de processos de trocas sutis, incluindo a decantação para o inconsciente de pensamentos conscientes sob formas transformadas. Pensamentos conscientes são originados nas e formam raízes no inconsciente. E elas poderão emergir nos sonhos.

Na vida moderna, rejeitamos os meios tons, as propriedades simbólicas, emocionais, psíquicas e mesmo espirituais dos objetos e pensamentos por motivos de exatidão e razão. No entanto, estes elementos estarão presentes no inconsciente. Nas comunidades nativas ou “primitivas”, em que a divisão consciente x inconsciente não está tão demarcada e em que as fronteiras não são tão rígidas, estes conteúdos são mais dinâmicos e fluídos e são celebrados nos mitos e ritos. “A verdade é que os homens do passado não pensavam nos seus símbolos. Viviam-nos, e eram inconscientemente estimulados pelo seu significado” (p. 81). Relegamos a um segundo plano e rejeitamos tanto em nossa sociedade civilizada os conteúdos psíquicos que eles já não nos causam impressões profundas. Por isso, eles emergem em situações de maior energia psíquica para que sejamos obrigados a prestar atenção: nos sonhos e nos sintomas neuróticos. Assim, parte da função dos sonhos é restabelecer a balança psicológica, “produzindo um material onírico que reconstitui, de maneira sutil, o equilíbrio psíquico total” (p. 49).

Jung adverte que o estudo dos sonhos não permite ingenuidades, já que têm sua origem em um espírito que não é bem humano, um “sopro da natureza – o espírito de uma deusa bela e generosa, mas também cruel” (p. 51). Jung está se referindo ao caráter muitas vezes ambíguo e enigmático dos símbolos. Estaríamos mais habituados a ele, caso não tivéssemos separado a consciência, em nosso processo civilizatório, das camadas mais instintivas e das bases somáticas dos fenômenos psíquicos. Além disso, quanto mais separados e díspares estiverem consciente e inconsciente, maior a probabilidade de um choque neurótico quando ambos entrarem em contato.
A análise dos sonhos, na filosofia junguiana, é um trabalho de extensivo e profundo estudo do simbolismo. No entanto, o contexto simbólico do sonhador é único e fundamental, de modo que, ao analisar um sonho, Jung recomenda que mesmo tendo aprendido tudo o que for possível sobre simbolismo, é preciso disso esquecer-se. Caso contrário, as ideias do analista de sonhos acabam predominando sobre as perplexidades e hesitações do sonhador. Deve sempre ser levado em conta as diferenças de personalidade entre analista e analisado. O processo de cura deve nascer do paciente, de modo que o analista deve proteger a sua dignidade e liberdade para viver de acordo com seus desejos. “O indivíduo é a realidade única. Quanto mais nos afastamos dele para nos aproximarmos de ideias abstratas sobre o homo sapiens mais probabilidade temos de erro. […] A psicologia depende, basicamente, do equilíbrio dos contrários […] nenhum julgamento pode ser considerado definitivo sem que se leve em conta sua reversibilidade. A razão desta particularidade está no fato de não existir nenhum ponto de vista, acima ou fora da psicologia, que nos permita formar um julgamento definitivo sobre a natureza da psique” (p. 58-59). O corolário disso tudo é que não é possível estabelecer regras gerais para a interpretação dos sonhos. Por isso, mesmo a afirmativa de que a função geral dos sonhos seja compensar deficiências ou distorções da consciência, deva ser sempre posta à prova.
Outro aspecto a que Jung faz referência é ao fato de que, na medida que o consciente se aproxima do conteúdo subliminar do inconsciente, tais ideias “escapam” ou “apagam-se”. A hipótese de Jung é de que, no estado subliminar, elas estão menos sujeitas à tensão e ao delineamento claro do consciente. Submetidas a tal tensão, os conteúdos simbólicos dissipam-se. Por serem menos “racionais” as analogias imprecisas, são mais “incompreensíveis” ao consciente. Isto é observado não só quanto aos sonhos, mas todas suas condições vizinhas, como cansaço, febre ou substâncias psicoativas. Aquilo que é capaz de ser submetido a maior tensão, emerge ao consciente e torna-se melhor “definido”. Assim, um sonho não pode produzir um pensamento definido. Mas há uma membrana semipermeável que, quanto mais desenvolvida mais permeável fica, entre os dois âmbitos, que permite trafegar sonhos, intuições e ocorrências espontâneas, influenciando a atividade do consciente. Esta membrana naturalmente fecha-se a repressões, negligências ou preferências. Para um maior fluir e qualidade da análise, deve haver honestidade entre analisado e analista a respeito de temores e gostos.
Arquétipos. Nas experiências de Freud e de Jung, inúmeras vezes nos conteúdos dos sonhos apareceram elementos não individuais, ou seja, não pertencentes à experiência pessoal do sonhador. Freud os chamou de resíduos arcaicos, mas Jung preferiu considerá-los formas primitivas e inatas, oriundas de uma herança do espírito humano. Jung observou as equivalências e analogias entre os sonhadores modernos e as expressões da mente primitiva, suas imagens coletivas e motivos mitológicos. Por isso, enfatiza a importância do conhecimento mitológico pelo analista. A estas expressões, imagens e motivos Jung denominou “arquétipos”. Por meio do arquétipo, há uma tendência para formar repetidamente estas representações, de inúmeras variações, mas sem perder a configuração original. Para Jung, esta é uma tendência instintiva, tão marcada quanto qualquer impulso animal.
Os arquétipos carregam todo tipo de imagens e motivos de emoções: “são a um tempo imagem e emoção” (p. 96). Para Jung, assim como a configuração geral total, os sentimentos envolvidos são reconhecidamente os mesmos em toda parte. No todo, os arquétipos são o reconhecimento de vestígios evolucionários e, assim, são também instintos humanos específicos. São formas de pensamento, gestos de compreensão universais e atitudes estabelecidas antes mesmo de o homem ter desenvolvido a consciência reflexiva. “Os pensamentos são uma descoberta relativamente tardia do homem. Primeiro ele foi levado, por fatores inconscientes, a agir; só muito tempo depois é que começou a refletir sobre as causas que motivaram a sua ação” (p. 81).
Jung observou que muitos destes arquétipos surgem sem mesmo se conhecer a “causa” que os fez emergir. Mas Jung observa que a “causa” pode pertencer ao futuro: “assim como nossos pensamentos conscientes muitas vezes se ocupam do futuro e de suas possibilidades, também ocorre o mesmo com o inconsciente e seus sonhos” (p. 78). O encadeamento de causas e eventos pode estar claro para o inconsciente e obscuro para o consciente, por meio das sutis formas de percepção do inconsciente.
O processo civilizatório afastou nossa consciência dos nossos impulsos. Mas eles não desapareceram. Surgem diariamente como sintomas físicos, neuroses, humores inexplicáveis, esquecimentos inesperados, lapsos de palavras e sonhos. O homem gosta de acreditar que é o senhor da sua alma, mas estes fenômenos mostram o contrário. A consciência dissociou-se da psique inteira e continua a compartimentá-la. Isto tem provocado alarmante grau de dissociação e confusão psicológica.
Este afastamento relegou os sonhos e as manifestações inconscientes ao mesmo local onde foi relegada a mitologia. O racionalismo que os gregos empregaram aos seus mitos foi modernamente empregado ao simbolismo do inconsciente e dos sonhos e reduzido a formas bizarras e causas deterministas de conteúdos reprimidos. “Para o espírito científico, fenômenos como o simbolismo são um verdadeiro aborrecimento” (p. 91), especialmente diante de uma instância individual de um ser único.
O reducionismo reduz a totalidade do indivíduo e seu caráter único. Toda a riqueza simbólica de um sonho está no mundo do próprio sonhador e da maturidade e qualidade das experiências do mesmo. Quando estamos diante do fenômeno, confrontamo-nos não só com o poder do símbolo, mas também com a totalidade do indivíduo que o produziu. “A psicologia é única ciência que precisa levar em conta o fator valor(isto é, sentimento), pois ele é o elemento de ligação entre as ocorrências físicas e a vida” (p. 99).
Mas esta ligação ainda se mantém nas crianças: mesmo sendo pequena e com pensamentos conscientes poucos e simples, traz à presença nos sonhos inúmeras histórias e identificações com a psique mitológica pré-histórica. Aqui ocorre, também, a manifestação dos arquétipos.
A cura da dissociação pode estar no próprio inconsciente. Claro, isto implica que o consciente precisa “curvar-se” diante do mistério.

2. Mitos antigos e o homem moderno (Joseph L. Henderson)

Os símbolos oníricos arquetípicos que aparecem nos sonhos têm origem no inconsciente coletivo, uma parte da psique que retém e transmite a herança psicológica comum da humanidade (N.E.: pergunto-me se o inconsciente coletivo é um lugar de armazenamento que duplicao conteúdo comum ou se é o próprio inconsciente comum, espécie de “repositório” único?) Eles continuam a aparecer como símbolos nos sonhos e nas histórias de entretenimento modernos e se manifestam apenas raramente nas crenças e rituais, pois os abandonamos com a civilização.

O mito ou arquétipo do herói é tanto moderno como antigo. A história, em ambos os casos, continua a mesma: nascimento humilde, mas milagroso, provas de força sobre-humana precoce, ascensão rápida e notória ao poder, luta triunfante contra as forças do mal, falibilidade ante tentações, fraqueza contrabalançada por guardiões e declínio ou morte motivado por traição ou sacrifício heroico.

A motivação simbólica deste arquétipo é representação da psique total que supre o ego de eventual força que lhe falte. Representa o caminho e os estágios da evolução da psique, cuja morte simboliza a maturidade. Assim, pode ser usada na interpretação dos sonhos de caráter heroico do sonhador. O herói não é o ego do sonhador, mas o meio que ele usa para separar-se das imagens dos pais na primeira infância. Neste processo o ego emerge da psique total (chamada por Jung de self) à medida que o indivíduo cresce, sendo o arquétipo do herói útil neste processo.
É justamente quando pode aparecer o componente psicológico da sombra. Trata-se de uma projeção do ego que contém aspectos ocultos, reprimidos e desfavoráveis da personalidade, sendo não apenas o inverso do ego, mas também instintos normais e impulsos criadores. A sombra pode ser a projeção inversa ou complementar do caráter heroico do ego do sonhador. Estar atento à sombra permite ao ego, continuamente, voltar-se à totalidade para restabelecer suas relações com o self e conservar a saúde psíquica.
O arquétipo da iniciação funciona como um elemento que afasta o indivíduo de um estágio não mais funcional de vida para outro mais total e condizente, no qual há uma passagem onde sua identidade é temporariamente destruída ou dissolvida no inconsciente coletivo e, então, salvo solenemente pelo rito de um novo nascimento. Envolve toda fase do desenvolvimento da vida humana, onde se caracteriza um conflito original entre as exigências do self e as do ego. São períodos críticos onde o arquétipo da iniciação é fortemente ativado.
Há também as manifestações de arquétipos masculinos e femininos. Isto pois há diferenças na psique masculina e feminina, que inclui o fato de que, arquetipicamente, “a vida, para o homem […] é alguma coisa que se toma de assalto, num ato de força de vontade heroica; mas […] para a mulher sentir-se em paz com ela mesma a vida se realiza melhor através de um processo de despertar progressivo” (p. 137). É o exemplo de “A Bela e a Fera” ou dos deuses mitológicos de caráter marcadamente masculino ou feminino.
Vale também mencionar a força de arquétipos de seres divinos por sua representação atual, como Orfeu ou Cristo (o “Filho do Homem”). Isto leva à introdução dos “símbolos de transcendência”, que se relacionam com a necessidade do ser humano de libertar-se de estados imaturos, rígidos ou disfuncionais para levá-lo à sua libertação e transcendência de um estado conflituoso para outro mais amadurecido e evoluído. Difere do arquétipo da iniciação, pois não está interessado em integrar o iniciado em uma doutrina ou forma temporal de consciência coletiva. Insere-se aí a própria ideia junguiana da “função transcendente da psique”, ou seja, aquela que permite à pessoa a realização das potencialidades do seu ser. Representa a luta para evoluir ou alcançar o objetivo. Normalmente é o pássaro ou os seres alados símbolos da transcendência, mas pode envolver lagartos, serpentes e peixes. Sempre algum símbolo de mediação entre mundos.
A partir de um divino espírito de insatisfação, há um impulso numa direção superior que pode ou não romper com símbolos de contenção. Requer invocar algo a mais que a aparência exterior, mas transcendência interior de velhos valores para criar um novo padrão de vida. Pode envolver um rito, que normalmente tem um processo de submissão, após um de contenção e outro de liberação, reconciliando os elementos conflitantes da personalidade.

3. Processo de individuação (M. L. von Franz)

Na teoria de Jung, há uma questão importante posta: que papel representam os sonhos, não apenas na organização imediata, mas na vida como um todo? Analisando mais de 80.000 sonhos, Jung observou que dizem respeito, não somente à vida atual de quem sonha, mas compõe uma única e grande teia de fatores psicológicos e que parecem obedecer a uma configuração que chamou de “processo de individuação”. É como um desenho sinuoso em longo período com espécie de tendência reguladora gerando lento e imperceptível crescimento psíquico. O centro organizador de onde emana esta ação é o self.

Este é um centro intuitivo e até mesmo arquetípico. Muitos povos têm ciência dele e lhe atribuem diferentes nomes, mesmo os povos mais simples e isolados, e relacionam-se com esta alma como um companheiro ou amigo interior. Há uma intuição natural sobre a existência e essência da alma. Nestes casos, os sonhos estreitam a comunicação entre o ser e o self, alma ou companheiro interior.

O ego é como um iluminador do sistema e que permite-o realizar-se. Apesar de ter esta função, o arquétipo do self informa a existência intuitiva e a experiência de algo maior ainda a guiar, um “desígnio secreto” de força suprapessoal. No entanto, a fluidez desta experiência implica no desembaraçamento do ego. Deve ser capaz de ouvir e entregar-se ao impulso interior de crescimento, que é anseio por autorrealização criadora e única.
Por vezes este processo implica dificuldades, escuridão ou trevas. De acordo com von Franz, “só há uma atitude que parece alcançar algum resultado: voltar-se para as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com a maior singeleza, e tentar descobrir qual seu objetivo secreto […] que, via de regra só se consegue percebê-lo por meio dos sonhos e das fantasias que brotam do inconsciente” (p. 167). Por meio deles, se entra em contato com a sombra, ou com aspectos de nossa personalidade que preferimos não olhar.
Nos sonhos e mitos, em geral, a sombra aparece personificada como uma pessoa do mesmo sexo que o sonhador. É mais comum “tropeçarmos” tanto na nossa sombra como na daqueles que comungamos um gênero quando estamos em contato. Ela pode ou não ser “hostil”, mas normalmente o é quando ignorada ou incompreendida. Representa o lado contrário do ego e encarna, frequentemente, os traços de caráter que mais detestamos nos outros.
O símbolo do labirinto é comum para indicar o inconsciente e é uma representação antiga para o porão, o mundo subterrâneo. Neste mundo há uma voz interior que nos guia para onde ir e o que fazer, mas há ocasiões em que o ego age de modo tão irrefletido que a voz interior é deixada ouvir.
Anima. É, na psique do homem, a personificação de tendências femininas, envolvendo humores e sentimentos instáveis, intuições, receptividade ao irracional, capacidade de amar, sensibilidade e o relacionamento com o inconsciente. Estará ajudando e desafiando o homem a desenvolver e amadurecer o próprio ser, integrando sua personalidade inconsciente e trazendo-a à vida. Então, este empreendimento implica reconhecimento da anima como poder interior. Intermedeia a comunicação, assumindo o papel de guia ou mediador entre o mundo interior e o self. É capaz de auxiliar o homem em uma estrutura evolucionária quaternária: 1) do relacionamento instintivo e biológico com o feminino, à; 2) evolução romântica, estética e sexual, ao; 3) amor como devoção espiritual e, por fim, à; 4) sapiência.
Animus. É a personificação masculina na psique da mulher. Assim como a anima, media o self com os demais elementos psicológicos na mulher. Assim como a anima é moldada pela mãe do homem, o animus é moldado pelo pai da mulher.
Self. É o símbolo da totalidade, a alma, o ser total. Relaciona-se à imagem do Homem Cósmico, mais como uma imagem interior do que uma realidade concreta exterior. Em seu aspecto total, é capaz de, em capacidade infinitamente superior ao consciente sozinho, estar sintonizado em múltiplas maneiras com o meio ambiente. Esta constatação levou Jung a crer que há uma conexão muito íntima e sutil entre psique e matéria, tateada pela medicina psicossomática, mas profundamente inexplicada, que podem até mesmo ser o mesmo fenômeno, vistos de pontos de vista diferentes. Neste âmbito, cunhou a ideia de sincronicidade: coincidências significativas entre acontecimentos interiores e exteriores sem relação causal percebida entre si. Por significativas enfatiza-se um denominador comum – a coincidência por um simbolismo comum.
Já se falou aqui da dissociação. Há duas razões principais para a perda de contato com o centro regulador da alma: 1) impulsos instintivos ou emocionais que provocam unilateralidade e perda de equilíbrio; 2) devaneios excessivos provocados por certos complexos, ameaçando a concentração e continuidade da consciência. Um é o oposto do outro, por excesso ou falta de concentração, mas ambos fazem perder a recepção de impulsos e imagens do centro psíquico.
Também a dissociação da civilização implica uma perda de sentido. É nesse sentido que a atenção ao inconsciente e aos sonhos pode ser produtiva: eles mostram ao sonhador que cada pequeno detalhe da sua vida está interligado às mais significativas e importantes realidades da existência humana. Na comunicação com a alma, podemos entrar em contato com a ideia de que algo maior deseja de nós alguma coisa, estabelecendo algumas tarefas especiais a serem cumpridas. E mais: os sonhos, vistos numa perspectiva horizontal, sempre dizem respeito ao relacionamento com outras pessoas. Mas estas outras pessoas podem, ao mesmo tempo, a partir das imagens oníricas, serem aspectos internos do próprio sonhador. Os sonhos nos revelam legitimamente algo sobre as outras pessoas e sobre si mesmo. Uma reflexão ainda mais profunda pode mesmo indicar que “encontrar o sentido mais profundo da vida é mais importante para um indivíduo que tudo o mais, e é por este motivo que o processo de individuação deve ter prioridade” (p. 224).

4. Simbolismo nas artes plásticas (Aniela Jaffé)

Uma série de símbolos comuns pertenceu a várias épocas nas artes plásticas. Desde tempos primitivos, a pedra, o animal e o próprio homem foram símbolos de expressões da psique. Mas o ápice parece ser o surgimento do círculo como símbolo do ser total, do self, da totalidade. Jung foi especialmente interessado pelo tema das mandalas, círculos sagrados presentes em muitas culturas. Elas influenciaram inúmeras manifestações humanas, entre elas as plantas baixas de cidades medievais e modernas e especialmente construções religiosas ou seculares. Representa uma projeção do interior da psique sobre o mundo exterior. Na relação clássica, o círculo é representativo da psique e o quadrado símbolo da matéria terrestre, do corpo e da realidade.
Esta justaposição ou relacionamento foi muitas vezes expresso nas artes. Para Bazaine, “Um objeto desperta o nosso amor simplesmente porque parece ser portador de forças maiores que ele mesmo” (p. 254). É como o conceito alquimista do “espírito da matéria”, um espírito inconsciente. Aparece sempre que o conhecimento consciente ou racional chega aos seus limites e o mistério estabelece-se.
Este mistério é uma tônica dos nossos tempos quânticos. A física subatômica despojou as unidades básicas da matéria do seu caráter concreto, estabelecendo paradoxais noções coexistentes, como massa e energia, onda e partícula, causa e efeito descontínuos, provocando uma mudança drástica no conceito de realidade, que parece irracional. Estas relatividades e paradoxos estão presentes também na psique, e este paralelismo implicou conversas entre eminentes pensadores de ambos âmbitos, como o próprio Jung e Wolfgang Pauli, Nobel de física. Frequentemente, como resultado desta conversação, há o assinalamento de que a realidade e a vida “única” parece ser o segundo plano comum aos dois domínios das aparências, a física e a psicologia. Assim como na física, nas camadas mais profundas da psique há a perda da singularidade individual à medida que se mergulha na escuridão.
Daí, entre outras causas, o surgimento da arte abstrata. Há a noção de que a inquietude metafísica e a angústia abstrata destes quadros e esculturas podem ter brotado de um mundo condenado, tanto científica quanto religiosamente, pois é contemporânea da noção de que “Deus está morto”. Na raiz desta angústia está a derrota (ou o recuo) da consciência. Jung, segundo Jaffé, “só pode oferecer à humanidade uma arma contra a catástrofe: o apelo à consciência individual, que parece tão simples mas é no entanto tão árduo” (p. 267).

5. Símbolos em uma análise individual (Jolande Jacobi) e Conclusão (M. L. von Franz)

Tudo o que foi expresso no livro é exemplificado numa análise individual de um engenheiro de 25 anos, por meio de 50 sonhos em um processo de nove meses.
Deve-se sempre questionar se um fenômeno mental é consciente ou inconsciente e se um fenômeno exterior “real” é percebido por meios conscientes ou inconscientes.

De maneira conclusiva, observam-se que “os símbolos arquetípicos combinam-se no indivíduo seguindo uma estrutura de totalidade e que é possível que uma compreensão adequada destes símbolos tenha efeito terapêutico” (p. 304). As ideias arquetípicas são também expressas mesmo nas mais “inovadoras” ou avançadas descobertas científicas e tecnológicas, pois sempre há no homem uma tendência para explicar o mundo a partir de noções racionais “satisfatórias”, muitas delas claramente baseadas em arquétipos. Isto está expresso em uma frase de Heisenberg: “O homem, ao examinar a natureza e o universo, em lugar de procurar e achar qualidades objetivas, encontra-se a si mesmo” (p. 307). Dado o mistério existente no fundo da matéria e no fundo da psique em si, parece que não serão jamais revelados.

Mas, apesar disso, ainda há sentido na busca. Para Jung implica reorientar a busca de “explicações causais” (isto é, racionais) para a busca do “significado” (isto é, propósito). “Vale dizer que, em lugar de perguntar por que alguma coisa acontece (o que a causou) Jung pergunta: Para que ela acontece?” (p. 309).

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