O Poder do Hábito: um livro sistêmico?

Recentemente selecionei uma lista de livros que trata de padrões de comportamento. Dentre eles, obtive The Pattern Instinct, Soccernomics e O Poder do Hábito. Hoje vou descrever um pouco minha experiência com este último.

O Poder do Hábito é um livro sobre como se formam os hábitos usando um pouco de ciência popular, psicologia social e neurofisiologia. Trata de como nos tornamos ligados aos hábitos, suas consequências e como transformá-los, na vida, na organização e na sociedade.

Este texto tem alguns spoilers, de modo que poderá ser mais interessante para quem já leu o livro. Mas se você não se preocupa com isso, siga adiante.

Um primeiro aspecto que gostaria de ressaltar é a noção principal: que nossos hábitos formam um enlace que envolve um gatilho que dispara uma rotina que traz uma recompensa e reforça o processo na próxima vez que o gatilho ocorrer. Por exemplo, tédio (o gatilho) faz você ir à cafeteria beber e comer (a rotina) e lá você encontra colegas para conversar (a recompensa). Junto com a rotina vem o anseio pela recompensa. A próxima vez que você estiver entediado, vai usar o mesmo processo porque o caminho já foi iniciado no seu cérebro e você anseia por isso. Inicialmente é uma pequena trilha e, com a repetição, vira uma freeway.

Esta noção é circular. Não era de espantar: boa parte da ciência base deste livro, ou é neurociência, ou veio do MIT, ambos com fortes raízes na cibernética, uma disciplina essencialmente circular.

Parece difícil, então, depois de um tempo, mudar hábitos, certo? Sim… e não, se você souber o caminho. Segundo o autor, o jornalista Charles Duhigg, a regra de ouro é manter o gatilho e a recompensa, mas inserir uma nova rotina. “Quase todo comportamento pode ser transformado se o gatilho e a recompensa continuarem as mesmas”.

Bem, isto pode não ser grande novidade, pois o marketing de produtos, os AAs, o movimento pela libertação dos negros norte-americanos e inúmeras outras iniciativas usam deste processo para atingir seus objetivos. No entanto, uma parte um pouco indigesta para a ciência é o componente fundamental para esta mudança, a fé, ou seja, a capacidade de acreditar (no caso, não necessariamente em Deus ou outra divindade religiosa, mas capacidade de acreditar que as coisas podem mudar).

Outro aspecto sistêmico que gostaria de ressaltar é derivado disso. O poder das pessoas acreditar é diretamente influenciado pelo poder do grupo a que o indivíduo pertence e do grau de compartilhamento das experiências dentro deste grupo. Aí reside o poder dos AAs. “As pessoas talvez sejam céticas sobre sua capacidade de mudar se estiverem por conta própria, porém um grupo pode convencê-las a suspender a descrença. Uma comunidade cria fé”.

A mudança de hábitos organizacionais é outro exemplo de abordagem sistêmica neste livro. “… Alguns hábitos têm o poder de iniciar uma reação em cadeia, mudando outros hábitos conforme eles avançam através de uma organização. […] Estes são os ‘hábitos angulares’. [Eles] dão início a um processo que, ao longo do tempo, transforma tudo.” O autor é muito feliz em ilustrar o caso da mudança organizacional ocorrida na empresa Alcoa, onde a mudança de hábitos de segurança transformou hábitos de qualidade, inovação e desempenho, todos retroalimentados entre si. Para nós, no Pensamento Sistêmico, um hábito angular é o equivalente a um ponto de alavancagem.

Aqui ou mais acima, vale sempre a ideia de que pequenas vitórias (mudanças) disseminam mudanças maiores que estimulam em feedback as pequenas e as grandes mudanças. É o enlace reforçador em operação. Enquanto os hábitos organizacionais, ou as também chamadas rotinas, na literatura de gestão, podem ser criados deliberadamente, a maioria no entanto é criada por acaso, como subproduto dos aspectos mecanicistas de empresas clássicas. Podem ser, neste caso, resultados do medo, das rivalidades e dos conflitos. Imagine as perdas e o mau desempenho que deriva disso.

O mesmo pode ocorrer com a mudança social em larga escala. “É por causa dos hábitos sociais que algumas iniciativas se tornam movimentos que mudam o mundo, enquanto outras não conseguem vingar. E motivo de os hábitos sociais terem tanta influência é porque, na raiz de muitos movimentos — sejam eles revoluções em grande escala ou simples flutuações nas igrejas que as pessoas frequentam —, há um processo em três estágios que historiadores e sociólogos dizem que sempre reaparece. Um movimento começa devido aos hábitos sociais de amizade e aos laços fortes entre conhecidos próximos. Ele cresce devido aos hábitos de uma comunidade e aos laços fracos que unem vizinhanças e clãs. E ele perdura porque os líderes de um movimento dão aos participantes novos hábitos que criam um novo senso de identidade e um sentimento de propriedade.”

Mas, no final, um aspecto é o toque de gênio na mudança social: para que uma ideia cresça além de uma comunidade, ela deve ser autopropulsora. Isto se atinge dando às pessoas novos hábitos que as ajudam a descobrir sozinhas aonde ir adiante. O que é bastante emancipador e auto-organizador.

APESAR de todos estes aspectos sistêmicos, tenho que admitir que, especialmente no que tange ao capítulo 9 e à maioria da literatura básica, o livro tem um caráter bastante mecanicista. Digo isso pois considero pessoalmente um boa parte da neurociência mecanicista. Não quero dizer em absoluto que ela seja inútil. É apenas meu incômodo com a abordagem linear de estruturas neurológicas (exclusivamente) gerando comportamentos padronizados. Isto me lembra Skinner. É importante reconhecer, como já o fizeram Jung, as terapias familiares e a Gestalt-Terapia, que o comportamento e a neurologia humanos são um complexo relacionado a inúmeros outros complexos, como cultura, relações, família, organização, nação, sociedade, contexto, ambiente. Tudo o que este livro descreve está diretamente sujeito a reconhecer o contexto mais complexo onde o hábito ocorre.